O Vinho e o Sushi
Combinação difícil, mas
nunca impossível.
Por Cristiano Lanna
Ao longo do tempo, países
que não tinham uma cultura de vinho, foram desenvolvendo sua gastronomia sem a
mínima preocupação de harmonizar seus pratos. Isso até que era bastante
razoável, já que não havia o vinho para beber, então por quê se preocupar com a
harmonização? Muitos países do oriente ainda tinham uma filosofia de que para
um prato se completar, ele deveria ter um pouquinho de cada um dos cinco
sabores, salgado, azedo, amargo, doce e umami - este pouco conhecido
por aqui, mas que tem uma ligação direta, e difícil, com os taninos dos vinhos
tintos.
O doce na comida faz
diminuir a sensação dos açúcares do vinho, fazendo com que sua acidez se
sobressaia além da conta. Não é a toa que nas sobremesas bebemos vinhos doces,
pois conseguem manter a doçura frente a uma grande quantidade de açúcar.
Vinagres e limão podem deixar o vinho “chato” e desequilibrado. Portanto, o que
poderíamos combinar com um sushi? O quitute japonês, preparado ao mesmo tempo
com vinagre, açúcar, wasabi e peixe, é talvez um dos grandes desafios
da harmonização.
De cara escolhemos os
brancos, apesar de alguns até defenderem algumas harmonizações entre tintos e
peixes, um sushi é um prato complexo demais para se arriscar algo tão
controverso. Ainda não vi uma combinação que tivesse dado certo e acredito que
as chances de dar certo seriam quase nulas.
Dentre os brancos damos
preferência aos que tenham acidez levemente acentuada e boa estrutura
aromática.
Vale lembra que mais difícil
que harmonizar com o peixe, é harmonizar com o açúcar, o vinagre e o wasabi presentes
no arroz.
Surpreendentemente, vinhos
de um país que sempre ficou um pouco de lado no mundo do vinho tem se mostrado
uma ótima opção de harmonização. Os rieslings alemães, são estruturados o
suficiente para aguentar tantos ataques sucessivos e ainda se mostrarem
vigorosos. Sua estrutura aromática ainda frutada, mas com toques florais e de especiarias,
prevalecem e ainda combinam muito bem com o gengibre servido entre um e outro
sushi. O arroz funciona como uma cama para a complexidade aromática que esses
vinhos apresentam. Lembrando que as notas de pêssego, peras e rosas, geralmente
encontradas nestes vinhos, casam muito bem com as nuances dos peixes crus.
Mesmo assim, é importante
frisar que estamos falando dos vinhos secos, ou quase secos. Em se tratando de
alemães, procure as palavrastrocken, seco, ou halbtrocken, meio seco, mas
cuidado para não confundir com trockenbeerenauslese que são vinhos
doces feitos com uvas já desidratadas, e definitivamente para sobremesas. Um spätlese,
colheita tardia mas ainda pouco doce, ainda seria uma boa escolha.
Outras opções são brancos
que tenham boa estrutura aromática, como os gewurztraminer alsacianos. Sua
amplitude de aromas de especiarias continua bem viva após um sushi. Estes,
também recomendo até com comidas mais gordurosas, picantes e pesadas como a tailandesa
e a chinesa. As uvas Viognier e Torrontés também costumam se portar muito bem,
especialmente exemplares mais jovens que ainda mantém sua acidez bem presentes.
Acredito que essa última seja uma grande revelação. Os aromas de abacaxi que a
Torrontés costuma apresentar combinam maravilhosamente com o peixe, sobretudo
com aqueles gordos pedaços de atum. Ótimo, pois aqui no mercado brasileiro
encontramos vários bons exemplares a bom custo da nossa vizinha Argentina.
Finalmente, Champagnes e
espumantes de bom corpo também fazem boas harmonizações.
Eles são uma combinação
clássica para peixes crus e defumados, além de frutos do mar como ameijoas,
ostras e vieiras. Com sushi também caem bem, mas evite preparações muito doces,
como os molhos teryaki ou agridoce, pois podem arruinar um grande
espumante.
Apesar de todas as dicas, o
mais importante na hora de harmonizar a cozinha oriental é testar. Lembrando
sempre que a acidez e a doçura serão os maiores desafios, e depois, pense no
tipo de peixe ou fruto do mar que acompanham. Até poucos anos ainda era
impensável beber vinho com sushi, mas isso não impede de se fazer uma grande
harmonização. Este ainda é um mundo a descobrir, então vamos desbravá-lo.
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