Vinho e Saúde
O
Interesse científico relacionado ao vinho vem aumentando enormemente. Uma busca
no pubmed revela um aumento de mais de 40x no número de publicações
relacionadas a “red wine” nos últimos 20 anos. Para se ter uma idéia, os artigo
que tem como descritor “myocardial infarction” aumentaram menos de 2x no mesmo
período. Isso me fez lembrar de um artigo que escrevi há 10 anos atrás para o
jornal da SOCERJ. Segue:
“O vinho é bebida excelente para o homem,
tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e
conforme seu temperamento.”
Hipócrates
(460-370 a.C.)
A
frase acima, atribuída a Hipócrates, o pai da medicina, nos traz duas
informações importantes. A primeira é que a humanidade possui uma relação
milenar com o vinho (as primeiras evidências históricas datam de 5000 AC,
oriundas da região onde hoje se encontra o Irã). A segunda informação, mais
importante que a primeira, é que já naquela época, se atribuía ao vinho um
efeito medicinal quando moderadamente bebido, denotando com isso uma
preocupação com a ingestão excessiva de álcool. Durante séculos se aventou o
benefício à saúde de se beber vinho, e por isso, são inúmeros os relatos
históricos, recomendando e estimulando esse hábito. Esses relatos não são necessariamente
médicos, como os de Thomas Jefferson, que antes de se tornar o terceiro
presidente americano, foi embaixador na França, onde adquiriu um verdadeiro
amor pelo vinho, sendo um dos responsáveis pelo advento da produção de vinho
nos EUA (homenageado hoje com Cabernet Sauvignon Jefferson Cuvée). Jefferson
dizia que o vinho era essencial à sua saúde e taxar rigorosamente o vinho era
taxar a saúde do cidadão. Todavia, os dados históricos não são apenas
românticos. William Heberden, em sua clássica descrição de angina, relata que o
vinho aliviava consideravelmente os sintomas.
As
especulações continuam até que, no final da década de 60 o Framingham Heart
Study revelou que consumidores moderados de bebidas alcoólicas apresentavam
mortalidade 50% menor por doença coronariana. Contudo, esse estudo não foi
considerado significativo para o Instituto Nacional de Saúde (NIH). Em 1991, o
programa de TV “60 Minutes”, da rede CBS, revelou o Paradoxo Francês, que se
referia ao fato da taxa de ingestão de gordura saturada na população do sul da
França ser muito próxima da americana (que é muito alta), embora a incidência
de doenças cardiovasculares fosse muito menor (78×182 mortes de origem
coronariana /100.000 indivíduos), sugerindo que a alta ingestão de vinho nessa
região da França pudesse ser responsável pela diferença de eventos cardíacos,
estimulando uma discussão milenar, dando origem a vários estudos
epidemiológicos. Os estudos que relacionam a magnitude da ingestão de álcool e
prevalência de doença cardiovascular, de uma maneira geral, apresentam
resultados muito semelhantes, com um padrão de curva em “J”, favorecendo o uso
moderado de álcool, em comparação com abstêmios e os bebedores pesados.
Mas
o que beber e quanto beber? Será o vinho melhor que outras bebidas alcoólicas?
Vejamos o que mostra um estudo dinamarquês, com 13.064 homens e 22.459
mulheres, avaliando o tipo e quantidade de bebida alcoólica e o risco de morrer
por qualquer causa. Quando comparados aos abstêmios, os consumidores leves (1 a
7 taças/semana) de vinho apresentaram um resultados 44% melhor, enquanto de
consumidores leves de outras bebidas apenas 10%. Essa diferença foi ainda mais
expressiva quando avaliada a morte por doença coronariana. Entretanto, quando
avaliamos consumidores maiores (22 a 35 taças/semana) de vinho ou qualquer
bebida alcoólica, esse benefício começa a se perder, tornando o risco de morte
muito semelhante ao dos abstêmios, para os consumidores de vinho e um aumento
de 40% no risco de morrer para os consumidores de outras bebidas alcoólicas.
Mas,
se epidemiologicamente parece saudável beber vinho moderadamente, do ponto de
vista biológico, o que explica esse benefício?
1)
Aumento do HDL-Colesterol: Se até hoje nenhum medicamento parece proporcionar
aumento do HDL-Colesterol, o consumo moderado de álcool parece promover aumento
significativo, dessa forma de colesterol, e inclusive de suas frações
antiateroscleróticas (2 e 3).
2)
Redução da Agregabilidade Plaquetária. As plaquetas têm papel fundamental na
gênese dos eventos cardiovasculares. O vinho tinto parece reduzir a sua
capacidade de agregar, e consequente formação de trombos, num efeito semelhante
ao da Aspirina.
3)
Redução da oxidação do LDL-Colesterol: O LDL antes de entrar nos macrófagos
para formar as células espumosas que se depositam no endotélio vascular, dando
origem à doença aterosclerótica, necessita ser oxidado. O vinho possui uma
série de substâncias com um efeito antioxidante, conhecidas como flavonóides,
sendo o mais estudado as Procianidinas. Essas substâncias estão presentes
predominantemente na casca da uva (também nas sementes), motivo pelo qual só
vão existir consistentemente no vinho tinto (dizem que em maior quantidade na
Cabernet Sauvignon), pois este tem contato com a casca durante a fase de
fermentação, diferentemente o branco.
4)
Aumento da síntese de Óxido Nítrico (ON): O ON é um potente vasodilatador.
5)
Redução da síntese de Endotelina (E1): A E1 é um potente vasoconstritor.
6)
Redução da atividade inflamatória na placa aterosclerótica.
Portanto
parecem bastante significativos (ou interessantes!) os dados a favor do
benefício do vinho nas doenças cardiovasculares, embora o seu mecanismo seja
complexo e não completamente compreendido. Entretanto o médico deve
prudentemente conversar com seu paciente sobre os efeitos deletérios (físicos e
psíquicos) do álcool em excesso, sem desencorajá-lo à prática saudável da
ingestão moderada de vinho junto às refeições, excetuando indivíduos com
passado de dependência química. Dessa maneira o consumo moderado de vinho, pode
ser incluído nas estratégias de prevenção primária ou secundária de doenças
cardiovasculares, junto com o antitabagismo, o controle da pressão arterial,
dislipidemia e diabetes, o exercício físico e a perda de peso. É esse amigo de
7000 anos orientando a humanidade a um estilo de vida mais saudável.
Saúde!
Fabrício
Braga
Fonte:
Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro - http://socerj.org.br/vinho-e-saude/
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